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Entrevistas
Entrevista realizada em 29/12/2007

José Dias: "Hermano Morais e Walter Alves não têm densidade política para uma candidatura a prefeito de Natal"

O deputado do PMDB anuncia que, se o seu partido não tiver um candidato apoiado por uma base forte, votará em Micarla de Sousa (PV) na sucessão natalense.
Fotos: Vlademir Alexandre
José Dias: "Tenho uma história de fidelidade no PMDB, não de submissão"
O deputado estadual José Dias é uma voz dissonante no PMDB potiguar. Enquanto o senador Garibaldi Filho e o deputado federal Henrique Eduardo Alves, principais lideranças do partido, fazem coro em defesa da candidatura própria à Prefeitura de Natal, o parlamentar vai na contramão. Considera que, afora os próprios Garibaldi e Henrique, que já descartaram a hipótese de se candidatar, a legenda não dispõe de quadros com musculatura eleitoral suficiente para enfrentar em pé de igualdade os candidatos governistas.

E o diagnóstico dele não é aleatório. Ao contrário. É dirigido ao deputado estadual Walter Alves e ao vereador Hermano Morais, tidos como alternativas do PMDB para a eleição na capital. A alternativa de José Dias é outra: a candidatura da deputada estadual Micarla de Sousa, do PV.

Com a franqueza habitual a que aliados da oposição e adversários governistas se acostumaram a ver no plenário da Assembléia Legislativa, José Dias analisa nesta entrevista o momento do PMDB não apenas em relação ao quadro sucessório de Natal, mas também sob um horizonte mais amplo, a partir da eleição de Garibaldi para a presidência do Senado.

Ele também mantém o forte tom crítico à administração da governadora e revela: não vai mais desistir da vida pública, como havia afirmado meses atrás.

Nominuto — Como o senhor está acompanhando, dentro do PMDB, as discussões sobre a sucessão em Natal?

José Dias — Você é jornalista e observa que o jogo está de retranca. Para se ter uma idéia, dos partidos grandes, se considerarmos o governo — porque não considero o PSB um partido grande, o partido grande é o governo —, o PMDB, o PT e o DEM, ninguém tem candidato. O próprio governo tem três ou quatro pré-candidatos. O próprio PMDB, que poderia ter candidatos favoritos, não pode ter porque os próprios candidatos, Garibaldi e Henrique, já disseram que não são. O PT está numa luta interna e não sabe qual grupo vai impor o candidato. O DEM também não fala em candidato. Há candidatos de outros partidos que aparecem bem nas pesquisas, como Micarla, que aparece em primeiro lugar e é de um partido pequeno, e Luiz Almir, que é do PSDB, hoje um partido também pequeno no Rio Grande do Norte. Então, hoje as coisas ainda estão muito na conjectura. Em relação ao PMDB, os nossos candidatos que teriam possibilidade de disputar com vantagem seriam Garibaldi e Henrique. Fala-se em Hermano e Walter. Ambos são bons nomes, mas isso não pode nos levar a dizer que eles podem ser candidatos isoladamente, com o PMDB isoladamente. Acho que a candidatura de um ou de outro pode ser viabilizada se houver um arco de alianças que a fortaleça. Não sendo assim, eles são jovens ainda e não têm densidade política. Essa é que é a realidade.

NM — Nesse contexto, o que o senhor diz é que o PMDB não tem candidato?

JD — Só teríamos candidato se Henrique ou Garibaldi decidissem se candidatar, o que realmente não acredito, ou se houver aliança com outros grupos. Candidatos sem uma densidade política forte, que já partam com um favoritismo muito grande, não podem enfrentar uma máquina num Estado pobre em que o hábito político vergonhoso e imoral é o uso da máquina pública nas eleições. Então, se você não partir de uma grande vantagem, já morreu de véspera.

NM — Em 2008, o PMDB vai completar 16 anos, ou quatro eleições, sem ter candidato próprio a prefeito de Natal. Um fator que levou o partido a se enfraquecer na capital. Diante disso, surge o dilema: é melhor ficar de fora da eleição novamente, se não houver uma candidatura viável, ou lançar um nome só por lançar?

JD — Não, eu não defendo um nome só por lançar. A candidatura heróica, moral ou uma anticandidatura se justificou no caso do doutor Ulysses Guimarães porque era um gesto de condenação a uma ditadura. Uma candidatura majoritária num Estado democrático tem uma finalidade: ganhar a eleição e chegar ao poder para administrar. Uma candidatura apenas por pretexto outro, a não ser o do desejo legítimo de ganhar, é absolutamente ridículo. Tem mais: para que tenhamos em Natal uma bancada razoável e forte na Câmara Municipal não precisa ter candidato (majoritário) próprio, é preciso administrar essa situação política e ter uma aliança que seja realmente confortável, do ponto de vista político e moral. E o PMDB tem condições de ter uma bancada boa na próxima legislatura. Reconheço que nós perdemos densidade de representatividade política na Câmara de Vereadores, mas o PMDB, como partido, não. Ainda somos fortes. A prova é que, na eleição passada, lutamos contra duas máquinas — e olhe que usaram essas duas máquinas de maneira vergonhosa. Digo isso com a maior tranqüilidade. Só não vê quem não quer ou não viu o que foi feito nas últimas eleições com a utilização ostensiva e massificada da máquina pública em favor das candidaturas oficiais. Nós tivemos um desempenho até excelente nesse aspecto, por lutar contra o governo num Estado pobre como o nosso.

NM — O senhor vê a possibilidade de o PMDB obter apoios de outros partidos para uma candidatura de Walter Alves ou de Hermano Morais?

JD — Eu não vejo como impossível, mas não vejo também como muito provável. Até porque os acenos que estão sendo feitos não me convencem. Apoiar uma candidatura do PT, por exemplo, seria suicídio. Já apoiamos uma vez e na eleição seguinte o PT votou contra a gente. Então, repetir a traição não adianta. Em relação a dona Wilma, ela já fez com José Agripino e já fez com a gente acordos que não cumpriu. E agora vamos fazer acordos com o candidato dela? Eu, pelo menos, não votarei. Digo isso com muita ênfase porque vou cumprir.

NM — É verdade que o senhor defende o apoio à candidatura de Micarla de Sousa?

JD — É verdade. Confesso que dificilmente deixarei de votar nela, até porque é a minha preferência. Só existe uma hipótese de eu não votar nela: uma candidatura própria com o apoio que a viabilizasse. Se não viabilizar, vou dentro do partido e digo que estão fazendo uma coisa irracional. Tenho a obrigação de respeitar a minha história. Sempre fui coerente com o partido. Tenho toda uma história de fidelidade partidária, mas não de submissão. Se o candidato não for do PMDB, nessas condições, eu voto em Micarla. Pode o PMDB se coligar com quem quiser, que eu seguirei aquilo que acho correto. Não confundo fidelidade com submissão.

NM — Há quem veja um novo e bom momento para o PMDB no Estado, com a eleição do senador Garibaldi Filho para a Presidência do Senado. O senhor vê da mesma forma ou acha que não muda muita coisa para o partido?

JD — Eu acho que, realmente, existe uma expectativa boa e que pode se concretizar. Primeiro, é Garibaldi fazer uma boa administração no Senado. O Senado pode ser, na realidade, uma plataforma para ele divulgar uma boa gestão, e essa gestão se realizará mais em uma forma de conciliar o Senado. Eu acho que o Senado tem, hoje, um problema não apenas de escândalos, mas também tem um problema de conflitos que romperam uma tradição. Diferentemente da Câmara, o Senado era instituição em que as coisas eram decididas com mais tranqüilidade. Eu acho que Garibaldi tem essa função. Tem uma função também, que eu acho importantíssima, de exercer a presidência com independência, mas com harmonia o poder Executivo, até porque nós estamos em um regime presidencialista em que, se não houver essa harmonia, o prejuízo é pesado para a nação, e não para o Governo. Eu acho que Garibaldi tem essa função também. E tem uma função que eu acho que poderá ser cumprida, porque é a decorrência do cargo, é ele utilizar o relacionamento que já criou na administração pública federal para defender projetos fundamentais para o Rio Grande do Norte. Eu acho que Henrique colocou a coisa com muita precisão: tem que ser definido um número de projetos que sejam prioridade, que sejam publicamente aceitos e que não caracterizem, vamos dizer assim, plataforma política de ninguém, mas que privilegiem, sim, o Rio Grande do Norte. A governadora já pensa diferente. Ela descarta, logo, os grandes projetos porque acha que o governo federal é que vai se mobilizar. O que ela quer é o varejo que ela vai administrar. Nisso, eu acho que Garibaldi não pode entrar. Aqui (na Assembléia Legislativa) eu sempre tive um discurso crítico com relação ao governo porque eu sempre achei que o governo nunca se empenhou em nenhum projeto importante para o Estado. Nunca se empenhou no aeroporto (de São Gonçalo) e agora descarta o apoio do senador Garibaldi com uma alegação que é desmentida pelos fatos, porque quem vai lá para o aeroporto vê que não existe. Tem que haver uma ação imediata em favor desse aeroporto. Eu não vejo nenhum empenho da governadora em relação ao segundo canal de transposição do rio São Francisco, que vai beneficiar a região Oeste. Eu não vejo nenhum empenho considerável e forte da governadora em relação à ação da Petrobrás, que eu não sei qual é o projeto fundamental, que esse é um problema que depende de mercado, enfim, não é uma coisa que a gente possa botar na cabeça e dizer “vai ser isso”. Mas a gente tem que exigir da Petrobrás que ela, realmente, apresente a solução. Eu não vejo nenhuma razão. Eu só vejo o interesse da governadora nas coisas pequenas que trazem, para o governo, recursos, vantagens, e ela fatura politicamente esses benefícios. Nisso aí, nós não podemos entrar. Seria um absurdo e o Rio Grande do Norte não precisa disso, ao contrário, nós temos que acabar com isso.

NM — E para o PMDB, politicamente falando, qual a mudança que traz a eleição de Garibaldi?

JD — A eleição de Garibaldi teve uma influência muito grande, vamos dizer assim, no moral das tropas, na linguagem popularizada. Houve um alento, um ânimo muito grande em toda a nossa militância política, lideranças, e há uma expectativa de que aconteçam essas coisas que a gente aqui, agora, falou. Quer dizer, Garibaldi divulgar o seu nome mais. Na hora em que ele faz isso de maneira nacional, há uma repercussão aqui no Estado. Na hora em que ele passa a influir para trazer ao Rio Grande do Norte coisas fundamentais, eu acho que isso também tem muita influência. Eu acho que ele será um interlocutor muito grande. O Rio Grande do Norte, com o presidente do Senado, vai deixar de ter essa posição de coadjuvante e, vamos dizer assim, até de esquecido do governo federal. Até porque ele vai ser ouvido pelo presidente. Os grandes projetos que o governo federal imaginou aqui para o Nordeste, o único em que o Rio Grande do Norte foi contemplado, e pela metade, foi o projeto (de transposição) do rio São Francisco. O poder da governadora junto ao governo federal, se é que existe, ela sempre exerceu em favor de coisas pequenas e de interesse dela. Financiamento para a ponte (Newton Navarro): ela conseguiu R$ 115 milhões do BNDES. Recebeu R$ 50 milhões do convênio e houve ainda uma contrapartida, me parece, de R$ 5 milhões do Estado, também a fundo perdido para a ponte. Para isso, ela se interessou. Eu queria que ela me dissesse uma coisa: se ela tem condições, para um projeto dela, de levantar, de conseguir quase R$ 170 milhões, por que ela não conseguiria recursos aqui para o aeroporto ou para outras obras importantes, como a barragem de Oiticica, por exemplo? Porque falta empenho.

NM — Falando do desempenho aqui no Estado, gostaria que o senhor apontasse o maior pecado e o maior acerto do governo. Começando pelo pecado.

JD — Eu acho que o grande pecado do Governo do Estado nós vamos pagar no futuro. Nós estamos em um momento de crescimento promovido por uma ação em que o governo não tem nenhuma intervenção, que é o crescimento imobiliário de Natal, porque há uma migração muito grande de pessoas que estão constituindo em Natal a segunda residência e estão acontecendo esses altos investimentos. O governo não tem a mínima interferência. Esse aspecto do turismo é independente do governo. Agora, quando isso realmente se implantar, sem a infra-estrutura, vai criar um problema muito sério e uma reversão muito grande. Nós temos um problema gravíssimo porque nós estamos vivendo um boom artificial. Primeiro porque o mundo está crescendo e esse dinheiro está vindo pra cá por causa desse crescimento, e quando esse crescimento parar esse dinheiro não vem da Europa ou de onde ele estiver vindo. Segundo: se não houver um apoio a esses projetos, a coisa também vai ficar muito ruim. O governo peca, também, pela incapacidade total, sob o ponto de vista gerencial. Tem três setores que são fundamentais para a vida humana, que são a Saúde, a Segurança e a Educação. Se não tivermos isso, voltamos para a selva. Em todos esses três setores, o Governo tira zero. Ele tira zero, zero e zero.

NM — E o maior acerto?

JD — Eu confesso — e acho que você pode dizer “mas você é tão crítico” — que até gostaria de dizer qual é o maior acerto, até para bancar o magnânimo, mas eu não consigo ver. Você pode perguntar: a ponte é o maior acerto? Não é o maior acerto, porque a ponte poderia ter sido construída no Baldo, sem a vaidade, sem o orgulho, pela metade do preço e com um resultado muito maior, mas muito maior mesmo. Hoje, nós ainda temos congestionamento razoável, quase igual ao que tínhamos antes – não é igual porque há um pouco da ajuda da outra ponte. Mas se a ponte tivesse sido construída no Baldo a situação seria totalmente diferente porque ela estaria bem localizada geograficamente, ela dividiria, na realidade, a Zona Norte ali para o Centro e atenderia a zona de crescimento da cidade. Onde ela está localizada é para servir de mostruário. É uma vitrine. Ela não tem razão de ser localizada lá e o custo foi excepcionalmente exagerado. Há um sobrepreço constatado pelo Tribunal de Contas da União, pela CGU, pelo MPF, por relatório do MPE. Todos os órgãos que se debruçaram sobre o assunto constaram isso, que é um fato concreto.

NM — O senhor mantém a posição de não mais seguir a carreira política após esse mandato?

JD — Não. Eu confesso a você que depois da eleição eu declarei que não seria candidato. Eu realmente achava que a última eleição tinha sido de uma forma que não condizia com o que eu pensava de política. Mas depois de muitos apelos, muitas pessoas me trouxeram a uma reflexão. Além disso, eu acho que está havendo uma modificação, esse problema de fidelidade (partidária), eu acho que nós vamos definir um pouco mais como vai ser essa coisa da representação, e eu vi que não dava pra sair. Eu confesso, com toda a honestidade, que eu gostaria de sair, até para cuidar um pouco dos meus negócios e viver uma vida mais tranqüila. Mas eu confesso que a gente muda nesse aspecto. A gente tem um desejo, mas às pressões e até mesmo aos argumentos, você reage emocionalmente, apesar de eu ter sido eleito. Eu reagi emocionalmente e pensei que não deveria mais ser candidato, mas eu vou tentar a reeleição.

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