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Al Cafona – O homem de branco

O onissapiente, onipresente e onipotente Homem de Branco, tratado nos círculos íntimos por Al Cafona, seu nome de batismo, era apenas um rapazola sem expressão, com olhar de boi-sonso e sorriso renascentista quando sua respeitável família trocou o conforto das plagas italianas pelas mutucas de Chicagô, cidade situada à margem do lendário rio podre dos monxorós.

Nada o destacava entre os meninos de sua época, a não ser o falso
jeitão de boboca, que mudaria na jovem guarda. Rosto cheio de espinhas
e voz desfilando entre graves e agudos, o moço entrou no rol dos tremendões tupiniquins, tornando-se açougueiro do iê-iê-iê graças a um inigualável talento para retalhar clássicos do roque utilizando o aço frio de suas pregas vocais.

No auge da fama, o jovem Al desapareceu. Os 20 anos durante os quais
sumiu do mapa inspiraram controversos evangelhos apócrifos. O certo é que, no retorno a Chicagô, apresentou-se na condição de membro fundador da sociedade científica secreta que dá origem ao epíteto Homem de Branco, entidade filantrópica que reúne seres humanos com poderes especiais.

A confraria demonstrou, por exemplo, a possibilidade de um corpo estar
presente em diversos lugares ao mesmo tempo, realizando ações diferentes. Centenas de mulheres, de partes diversas do Rio Grande Sem Sorte, participaram voluntariamente da experiência que já se encontra inscrita em letras garrafais no livro de ouro da medicina, para orgulho dos chicagoneses.

Poderoso! Assim voltou Cafona ao convívio social, dizendo-se capaz de
controlar políticos, jornalistas, magistrados de todas as esferas e deuses. Diabo é quem duvida, afinal ele venceu até seu mentor, o bruxo Ravengar, marido da Rainha de Avilã, mestre dos magos da politicagem tupiniquim, eminência parda do país de Chicagô durante longos e maravilhosos 12 anos.

O erro ravengariano foi subestimar o talentoso Al Cafona, que o humilhou sem piedade, afastando-o aos coices da rotina palaciana, tratando-o como louco viciado em fluoxetina incapaz de assinar um reles documento. Além disso, fez por onde derrotar o irmão e a cunhada daquele a quem jurara lealdade, cantarolando "Você, meu amigo de fé, meu irmão camarada...".

Isso mesmo, "o amigo de tantos caminhos e tantas jornadas" perdeu o
respeito do discípulo ao lhe entregar de mão-beijada o poder. Trágica, mas lírica, foi a parte em que, diante das queixas do bruxo combalido, insistente em exclamar "Até tu, Brutus!", o velho Al lançou mão de suas armas e cantou à queima-roupa: "Você não é doce de coco/ Mas enjoei de você".

Cafona jura haver agido em legítima defesa: ou engolia o chefe ou era
comido por ele — uma comilança no sentido metafórico da expressão. À
sombra de Ravengar, a senhora Cafona, posta no lugar da Rainha de Avilã, não se sentia à vontade para usar laquê ou confessar que não achava graça das coisas da revista Papangu porque nunca compreendia a piada.

Por estranho que pareça, era verdade: a mulher do homem de branco,
guardiã da liberdade, revolucionária da semântica, inventora da máquina de costura para jornalistas, guerreira forte o bastante para remar barcos encalhados no calçamento, amedrontava-se com a presença fantasmagórica do bruxo rabugento, que fazia de um tudo para não largar o ossinho.

Superado o obstáculo, o casal pôde seguir a tradição de Chicagô, do tudo pela família, desmamando os capachos de Ravengar e distribuindo tetas para legítimos integrantes do clã Cafona. Aos que espernearam, jurando retaliação, o homem de branco tratou com rigores musicais, entoando em lá, sol, fá, mi, ré o tal de "Pode vir quente que eu estou fervendo".

Ensurdecido pelo golpe, nosso Merlin afastou-se da cena partidária, tornando-se observador político, unindo-se secretamente a safadotes quarentões. Coincidência ou não, depois desse acordo que não terminará em filme, porque só inclui artista, uma dinamite prestes a explodir desafia a perícia e a autoproclama da influência Cafona. É uma brasa, mora?

Nós, papangus de Chicagô, estamos chicagando de medo do poderoso Al e de suas canções mortíferas. Preocupa-nos a possibilidade de ele não entender o sentido carinhoso desta matéria ou de achar que ajudamos a acender o pavio do explosivo. Oh, grande Al, se o ofendemos sem querer, processe-nos, mate-nos, esfole-nos, mas por caridade: não cante!

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Comentários enviados

10000000000000000000000000000000000!!!!!! Assim vou acabar virando sua fã...rs. Parabéns!
Andréa (postado no dia 11 de novembro de 2008, às 15h52min)

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